Confederação de Umbanda e Candomblé Luzes dos Orixás Zaze Loiá Ará

As religiões Afro-Brasileiras e suas constantes mudanças.

 

Quando falamos da religiosidade Africana, automaticamente nos remetemos as milenares formas de rituais e as mais diversas formas de interpretações sobre o Divino, cada uma associada a sua origem geográfica e consequentemente cultural. No entanto, quando falamos de religiosidade Brasileira de matriz Africana, logo entendemos que ela foi formada pelas diversas culturas Africanas que aqui se instalaram no regime escravagista. Cada grupo étnico implantou e adaptou sua religiosidade e costumes a nova realidade vivida no Brasil. Obviamente seria impossível praticar suas religiões na condição de escravos, pois o massacre catequizador Europeu, a violência física e psicológica jamais permitiu que os Africanos exercessem suas liturgias, pois o clero católico abominava tanto o homem negro como suas expressões culturais. Séculos passaram e mesmo com o advento da libertação dos escravos, os povos Africanos não podiam ter a liberdade de culto religioso. Uma saída inteligente que os Africanos tiveram foi “mascarar” seus cultos associando ao sincretismo católico, e também adaptá-los, e podemos até dizer que “reinventaram” suas religiões, sem perder é claro, as bases de sustentações filosóficas e doutrinárias.

Peço a atenção do leitor, para que guarde bem essa palavra – ADAPTAÇÃO – pois ela será a chave do objetivo desse texto.

Seria impossível querer praticar seus costumes de forma integral como em África, então eles modificavam os rituais e adaptavam no Brasil.

E o tempo passou...

As casas de Candomblé foram sendo fundadas e estruturadas como instituições religiosas (embora, na época não eram reconhecidas como religião e eram perseguidas pelas autoridades), mas graças ao trabalho e ao esforço dos negros elas se estabeleceram.

Chegando aos dias atuais, vamos fazer uma retrospectiva bem sucinta sobre as casas de Candomblés Brasileiras. No passado os templos de Candomblés eram bastante rudimentares, suas instalações eram muito simples, sem energia elétrica e os rituais de certa forma eram diferentes dos que temos hoje em dia. O progresso foi chegando, as novas tecnologias, tendências, fizeram com que muitas dessas casas tradicionais também se ADAPATASSEM aos novos tempos, ou a modernidade. Já passaram a usar luz elétrica, construções de alvenaria, inseriram materiais industrializados em seus objetos ritualísticos, como o vidro, porcelana, cerâmica, tecidos industrializados e até sintéticos, foram implantados em seus rituais as indumentárias e paramentos nas suas Divindades, houve também uma divulgação e maior aceitação dos leigos ao Candomblé ocorrendo assim uma germinação de novos adeptos e consequentemente novas famílias religiosas foram formadas por todo Brasil, despertando uma nova visão que resultou na atenção das ciências acadêmicas sobre a religião de matriz Africana, onde centenas de estudos e obras antropológicas e históricas ajudaram a divulgar e informar o Candomblé aos leigos e até mesmo aos praticantes. A forma litúrgica também sofreu modificações, porém a essência - da religião Africana - hoje “reinventada” Candomblé Brasileiro não se perdeu (pelo menos nas casas e famílias que guardam essa tradição), que é a Iniciação aos cultos Afros. O objetivo e as atribuições teológicas, doutrinárias, filosóficas, sacerdotais não se modificaram mesmo com todas essas ADAPTAÇÕES que ocorreram no percurso da história, a base de sustentação do culto Africano não foi perdida, a essência que é o “DNA” da geração e do nascimento religioso não foi esquecida ou modificada. O que se adaptou foi forma externa de apresentação desse contexto.

Muitas famílias (raízes) são bastante inflexíveis com relação às mudanças e suas adaptações. Em sua maioria, alegam que a modernidade afasta da tradição, perde a essência dos antepassados e do culto. Respeitamos incondicionalmente essas opiniões, porém pensamos de forma diferente.

Sabemos que toda mudança causa espanto, descostumes, dúvidas e até mesmo corremos o risco do erro, porém entendo que toda mudança deve ocorrer de forma lenta, de modo que essa transição seja imperceptível ou sucinta para não causar efeitos colaterais. O que quero dizer com isso, é que não dá para esconder ou negar que o Candomblé desde a chegada do primeiro negro em solo Brasileiro até os dias atuais, sofreu mudanças e adaptações das mais diversas, e que o que vivemos hoje é o resultado de séculos de pensamento e prática religiosa, e seguindo um pouco além da questão histórica, em pleno século XXI, passamos por evoluções especialmente científicas que fica praticamente impossível não querermos enxergar que esses avanços também são obras Divinas do poder imensurável das Divindades Africanas possuem e por nós cultuadas. Hoje por mais sábio e zeloso das tradições do Candomblé que seja o sacerdote, ele possivelmente recorre às ciências médicas, aos fármacos, utiliza dos recursos elétricos, das tecnologias, das telecomunicações, da educação etc, ou seja, ele está inserido inevitavelmente no século XXI. Sua fé e sua Divindade se manifestam também no século XXI. Muito sábia e digna de pleno respeito e admiração a importante sacerdotisa do Candomblé da atualidade, mãe Estela de Oxossi (Ilê Opo Afonjá - Bahia) diz no título de seu livro e em suas entrelinhas – Meu tempo é agora -  resumindo todo o objetivo desse texto, mostrando frases comuns do povo do Santo como:  “No passado se fazia assim”, “Os meus mais velhos faziam daquele jeito”,” Eu aprendi assim e não vou mudar”, mostrando a resistência do povo de Santo as mudanças. Quando pensamos sobre mudanças, não significa que estamos indo contra nossos princípios e aos nossos aprendizados transmitidos pelos mais velhos, mas sim os adaptando aos novos tempos, de maneira sucinta, responsável e que não deixe dúvidas ou descrenças. Nada é estático, nada é parado, e as coisas evoluem inclusive a religião, somos hoje a prova viva dessa evolução.

Mudanças acontecem, e não acontece ao acaso, mas toda mudança precisa ser feita de forma responsável, consciente, baseada em verdades e realidades, e sobre tudo de forma harmoniosa e bem alicerçada, para que não se desmorone, pois a base, o fundamento, a essência, essa sim não pode ser mudada.

De forma alguma queremos mudar a estrutura, ao radicalizar fazendo mudanças drásticas da água para o vinho, queremos sim abrir nossos pensamentos e opiniões para novas ideias, novas discussões, novos aprendizados que culminam em consenso e assim crescemos como seres humanos, e uma condição essencial para isso é o respeito e o dialogo intra-religioso, pois uma de nossas bases doutrinárias imutáveis é a interdependência do ser humano.

Vale a pena lembrar, que as ordens que vem de cima para baixo, ou seja, mesmo falando de adaptações e mudanças, todas elas são viabilizadas e autorizadas pelo Santo Patriarcal ou Matriarcal de cada casa, de cada indivíduo, nada muda sem que Eles permitam, e se Eles permitem, estão provando no plano da terra que nos ajudam a evoluir.

Nós do Candomblé nação Angola, passamos hoje por um momento de reflexão, um resgate cultural das tradições Angola-Congo, passamos uma espécie de Angolanização para tentarmos uma possível desnagotização de nossos cultos. Esse processo visa “filtrar” nossos cultos a um estágio mais próximo e característico da cultura Angola-Congo, tentando readaptar em uma linguagem única (Angola-Congo) o que foi adaptado e miscigenado no passado pela junção Bantu-Yorubá. Essa reflexão enfoca primeiro a questão linguística, em um resgate das línguas Bantu, Kikongo etc e subsequentemente nos processos rituais do povo de Santo Angola-Congo.

De forma alguma julgo ser incoerente a “mistura” de cultos Bantus – Nagôs, entendo que ela foi e é em algumas situações até necessária para escrever o desenrolar da história, e estruturar o papel das religiões Afro-brasileiras, é como se fosse um empréstimo cultural que uma fazia a outra nas questões religiosas, porém hoje, temos uma religião Afro-Brasileira (Candomblé) já bem estabelecida e definida, e agora buscamos de forma harmoniosa resgatar a cultura individual de cada segmento do Candomblé. É um processo de reorganização interna de cada nação.

Mais uma vez recaímos nas adaptações e mudanças, situação que é inevitável.

 

 

Zamum Dundu Ará

Nzô Nguzu Zazeloiá Ará

 

 Os textos abaixo expressam a opinião particularizada de seus idealizadores, seja de espíritos encarnados ou desencarnados. Vivemos em uma democracia fundamentada na liberdade de pensamento e de expressão.